De piloto de avião a escultor
Recém premiado nos salões de Ilhabela (setembro/2009) e Ubatuba (novembro/2009), Ken Yuaça pode se considerar um homem afortunado. Começou a trabalhar com cerâmica por conta de um acidente que lhe queimou boa parte do corpo. Ken era piloto de avião. Como tentativa de fisioterapia, passava horas manuseando argila. Gostou, e produziu várias peças. Em 2007 ganhou o prêmio Talentos da Maturidade do Banco Real, com a peça "Protúbero Oco". Em 22 anos Ken produziu mais de 50 trabalhos inéditos e recebeu 5 prêmios. A seguir, Ken fala de como a arte o ajudou a descobrir uma nova profissão e uma razão a mais para gostar da vida.
CulturAll: Como o senhor começou a trabalhar com esculturas?
Ken: Em 1975 eu era piloto de avião quando sofri um grave acidente aéreo. Quase morri. O médico chegou a dizer: "Esse japonês já era. Se sobreviver, vamos ter de amputar os dois braços". Graças a Deus, não foi preciso. E, como forma de fisioterapia, eu comecei a amassar barro, forçando os dedos ao movimento. Eu ia com meus filhos pegar argila preta, na chácara de um vizinho. Foi a melhor argila que já manuseei. E a gente fazia aquilo de brincadeira. Eu sabia que, se voltasse trabalhar como piloto de táxi aéreo, o cliente iria olhar para as marcas da queimadura (que ficaram bem feias e deformantes) e iria querer saber o que houve. Claro que teria medo de voar comigo. Então, não poderia voltar. Tampouco poderia fazer um trabalho mecânico, do tipo ascensorista de elevador, como me sugeriu um dia uma funcionária do INSS.
CulturAll: O senhor teve orientação ou influência de alguém para fazer seus trabalhos?Ken: Na época do acidente meu irmão morava comigo e ele já mexia com cerâmica. Fazia, queimava e vendia. Eu fazia como hobby, ele como profissão. Aprendi muitas coisas com ele, inclusive a esmaltar peças.
CulturAll: Como foi que começou a ter o seu trabalho reconhecido?Ken: Logo no começo fazia peças pequenas como vasos e talhas para meu uso. Com o tempo percebi que as pessoas queriam comprar meus trabalhos, o que era sinal de algum reconhecimento.
No início da década de 80, quando morava em Goiânia, convivi com alguns artistas famosos como Divino Jorge, Guilhermina e Isa Costa. Eles começaram a me falar das exposições e me incentivavam a inscrever meus trabalhos. Assim, fiz a primeira exposição em 1984 e no ano seguinte ganhei o primeiro prêmio.
CulturAll: Em sua definição, qual é o estilo das suas obras?
Ken: Minhas obras impactam pelo tamanho. Meu estilo é abstrato.
CulturAll: Ultimamente, suas esculturas vêm ganhando vários prêmios. Como o senhor enxerga isso?
Ken: O artista tem que ter retorno do público. Os prêmios são como uma interação com o público que olha e reage as suas obras. Na verdade, os prêmios são aleatórios e não são justos. Porque na arte não se pode comparar uma coisa com outra. Apesar dos critérios, avalia-se a técnica. E arte não é critério, é expressão, que não se pode avaliar, porque isso é subjetivo.
CulturAll: Ouvi dizer que o senhor ensina a sua arte de graça, é verdade?
Ken: A quem se interessar, ensino de graça. Ensinei vários que depois se desenvolveram e chegaram a ser artistas conhecidos.
Em meados da década de 80 eu ensinei no "São Cotolengo" (entidade que assiste deficientes mentais, visuais e auditivos em Goiânia). Eu ficava impressionado com o trabalho dos meninos! Os deficientes mentais faziam bonecos sem cabeça! Quando se faz uma figura humana o artista faz muito parecido com ele mesmo.
CulturAll: Fazendo uma pequena avaliação da sua vida, foi ruim deixar de ser piloto de avião?
Ken: "Quebrar" a vida não é brincadeira, é terrível, mas tudo o que aconteceu foi bom para mim. Deus estava por trás mexendo as peças até eu chegar aqui. Eu não tenho a sensação de lástima por deixar de ser piloto. Isso agora é outra fase e uma não é menos importante que a outra. Na ocasião do acidente, eu retomei o relacionamento com Deus de uma forma mais pessoal. Depois disso, o " X" é relacionamento. Tudo o que faculta relacionamento eu acho ótimo. Prêmio é bom, na medida em que faculta o relacionamento com outros. Dou aula para ter relacionamento com quem quer aprender. Relaciono-me com outros artistas.
Hoje, Ken tem 75 anos. É um artista que nasceu das chamas, um ser humano reabilitado que continua trabalhando ativamente em seu atelier. Piloto aposentado, produz suas peças, ganha prêmios, investe em novos talentos e expressa a vida através da sua arte.
Texto Liana Goya

Oi Liana! Sou eu, Hyrata de Goiânia!
ResponderExcluirMe senti lá na igreja, na hora do almoço de domingo depois do culto ouvindo a conversa dos dois. Posso reproduzí-la no meu blog também? Ei-Lo: http://rirabelmiro.blogspot.com/
Me mande um ok para que eu faça. SAudades!